sábado, junho 24, 2006

Talvez um dia...


Sossega, coração! Não desesperes!
Talvez um dia, para além dos dias,
Encontres o que queres porque o queres.
Então, livre de falsas nostalgias,
Atingirás a perfeição de seres.

Mas pobre sonho o que só quer não tê-lo!
Pobre esperença a de existir somente!
Como quem passa a mão pelo cabelo
E em si mesmo se sente diferente,
Como faz mal ao sonho o concebê-lo!

Sossega, coração, contudo!
Dorme!O sossego não quer razão nem causa.
Quer só a noite plácida e enorme,
A grande, universal, solente pausa
Antes que tudo em tudo se transforme.

Fernando Pessoa, 2-8-1933.

segunda-feira, maio 08, 2006

... da dor...


ACROBATA DA DOR

Gargalha, ri, num riso de tormenta,
como um palhaço, que desengonçado,
nervoso, ri, num riso absurdo, inflado
de uma ironia e de uma dor violenta.

Da gargalhada atroz, sanguinolenta,
agita os guizos, convulsionado
salta, gavroche, salta clown, varado
pelo estertor dessa agonia lenta ...

Pedem-se bis e um bis não se despreza!
Vamos! retesa os músculos, retesa
nessas macabras piruetas d'aço...

E embora caias sobre o chão, fremente,
afogado em teu sangue estuoso e quente,
ri! Coração, tristíssimo palhaço.
- Cruz e Sousa
Fugir dos fatos é evitar a dor. E obviamente que se sonha com o que não se tem... Mas não é uma questão de ter. Pessoas não tem donos.
E eu tenho saudades... embora sempre perto, sempre longe.

domingo, maio 07, 2006

... da espera...

ESCÁRNIO PERFUMADO
Quando no enleio
De receber umas notícias tuas,
Vou-me ao correio,
Que é lá no fim da mais cruel das ruas,

Vendo tão fartas,
D'uma fartura que ninguém colige,
As mãos dos outros, de jornais e cartas
E as minhas, nuas - isso dói, me aflige...

E em tom de mofa,
Julgo que tudo me escarnece, apoda,
Ri, me apostrofa,

Pois fico só e cabisbaixo, inerme,
A noite andar-me na cabeça, em roda,
Mais humilhado que um mendigo, um verme...
- Cruz e Sousa
Mas um dia a contar as horas para que elas cheguem e não cheguem, em uma eterna contradição comigo mesma. Contando as horas... As pessoas passam, vêm e vão... e você, onde está?

sábado, maio 06, 2006

sobre as difeRenças...


Sou mais uma vítima do amor
Do amor que prejudica
Sou mais uma vítima do amor
E acho que é até bonito
Eu sou um cara que gosta de zonas com amigos
Eu sou um cara que precisa ficar sozinho
Mas é difícil você ser a única pessoa numa família
Eu sou um cara que só faz o que quer, e essa é a minha felicidade
Sair pela cidade sem rumo de carro
Não ligar avisando
Ir embora à francesa
Andar com todo o tipo de gente
Eu sou um cachorro vira-lata sofisticado
Mas um vira-lata
Eu sou uma criança desiludida
Que pede sempre perdão
Eu sou um garoto obediente
Que desobedece só de curtição
Portanto, meus amigos, me dêem espaço para amar também
Por que eu sei que vou ser sempre um menino
Mas também sou um homem inteligente e decidido
E posso ensinar muita coisa
Um professor descaralhado e sério
Por que aprendi a ser sério e fútil
E a futilidade é o que nos salva nessa vida...
- Vítima do amor (Cazuza)




Pensando e apenas pensando em tantas coisas que eu queria dizer a tanta gente... Gente igual, gente diferente...
- Ah, e como me encanta a tua diferença... -
E eu procuro seu olhar... Sempre e a todo momento... Procuro tua presença, mesmo apenas para te observar como uma criança atenta a novidade...
Eu te espero...
(ou corro atrás?)

sábado, abril 29, 2006

... sobre as coiSas...



Tudo parece cinza de vez em quando... Talvez seja uma nuvem passageira sobre nossas cabeças... pensamentos que dizem sobre nada... Uma tristeza que vem de uma distância infindável... lembranças atormentadas. E você fica pensando em coisas... coisas que nem deveria pensar, pois não te pertencem... e nem irão te pertencer um dia. São coisas, coisas de poetas loucos que andam sem rumo com uns versinhos dentro dos bolsos... subornar anjos...

Um dia eu quero entrar no céu... será que eu posso?


Conversa fiada - Mario Quintana

Eu gosto de fazer poemas de um único verso.
Até mesmo de uma única palavra
Como quando escrevo o teu nome no meio da página
E fico pensando mais ou menos em ti
Porque penso tambêm em tantas coisas ... em ninhos
Não sei por que vazio em meio de uma estrada
Deserta ... penso em súbitos cometas anunciadores de um mundo novo
E - imagina ! -penso em meus primeiros exercícios de álgebra,
Eu que tanto, tanto os odiava ...
Eu que naquele tempo vivia dopando-me em cores, flores, amores,
Nos olhos-flores das menininhas - isso mesmo !
O mundo
Era um livro de figuras
Oh! os meus paladinos, as minhas princesas prisioneiras
Em suas altas torres,
Os meus dragões
Horrendos
mas tão coloridos ...
E - já então - o trovador dos versos de Camões :
"Que o menor mal de todos seja a morte!"
Ah, prometo áqueles meus professores desiludidos que na
próxima vida eu vou ser um grande matemático
Porque a matemática é o único pensamento sem dor ...
prometo, prometo, sim ...
Estou mendindo? Estou !Tão bom morrer de amor ! e continuar vivendo ...

[Baú de espantos. Porto Alegre: Globo, 1986.]